Conheça o muriqui e veja por que é urgente preservar a espécie

Todo mundo conhece a onça-pintada. Já ouviu falar do mico-leão-dourado. São símbolos da fauna brasileira. Mas poucos sabem que o Brasil abriga o maior primata das Américas e que ele pode desaparecer sem que a maioria da população sequer tenha ouvido seu nome. Estamos falando do muriqui-do-norte, espécie endêmica da Mata Atlântica e criticamente ameaçada de extinção. Restam cerca de mil indivíduos na natureza. Para mudar esse destino, o Ibiti Projeto, em parceria com a ONG Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), desenvolve uma iniciativa inédita no Brasil: a Muriqui House. Ali, oito muriquis vivem hoje sob monitoramento científico, em uma área integrada à floresta regenerada. Cada um carrega uma história de sobrevivência. E juntos ajudam a reconstruir o futuro da espécie. Os trabalhos não param por aí. Para ampliar a diversidade genética e fortalecer a população local, serão reintroduzidos mais oito muriquis nas matas do Ibiti Projeto. Ficou curioso? Leia a seguir mais detalhes sobre essa iniciativa pioneira no mundo. O que são os muriquis? Existem duas espécies diferentes de muriqui no Brasil, vivendo em áreas geográficas distinta: O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) ocorre no sul da Bahia, em Minas Gerais, no Espírito Santo e na porção norte do Rio de Janeiro. Já o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) habita o sul de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná. Ambas as espécies estão ameaçadas. Mas a situação do muriqui-do-norte é ainda mais delicada, e é justamente essa espécie que vive na região do Ibiti e protagoniza a história da Muriqui House. O muriqui pode atingir até 15 quilos e mais de um metro de comprimento com a cauda. Também conhecido como mono-carvoeiro, desloca-se com impressionante leveza pelas copas das árvores. Em tupi-guarani, “muriqui” significa “povo manso da floresta”. Eles não disputam poder com agressividade. Não há macho alfa dominante. Conflitos são resolvidos com longos abraços. Por isso ganharam o apelido de “hippies da floresta”. São exclusivamente vegetarianos e desempenham papel ecológico crucial: ao se alimentarem de frutos e folhas, dispersam sementes, ajudando a regenerar a Mata Atlântica. Onde há muriqui, a floresta se fortalece. Por que estão ameaçados? O principal problema é a fragmentação da Mata Atlântica. A floresta que antes era contínua hoje está dividida em pequenos fragmentos isolados por pastagens, cercas e estradas. As fêmeas, ao atingirem a maturidade, precisam migrar para outros grupos para garantir diversidade genética. Mas, ao sair de seus fragmentos, muitas encontram barreiras intransponíveis. Sem conectividade entre áreas de floresta, não há troca genética. Sem troca genética, as populações enfraquecem. Salvar o muriqui exige mais do que proteção: exige reconstruir conexões. Muriqui House: uma operação pela sobrevivência No entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, o Ibiti Projeto, em parceria com o Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), a Universidade Federal de Viçosa, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (ICMBio) e a Universidade de Wisconsin–Madison (EUA), mantém o Muriqui House, centro de manejo, pesquisa, reabilitação e reconstrução populacional da espécie. É um espaço monitorado, integrado à mata regenerada, onde indivíduos isolados ou resgatados podem viver em grupo, sob acompanhamento técnico. Hoje, oito muriquis vivem ali. Tudo começou com Luna e Bertolino, dois irmãos remanescentes das florestas da região. Depois vieram as fêmeas Ecológica e Socorro. Morfeu foi encontrado recém-nascido, quase sem vida. Sobreviveu graças aos cuidados intensivos da equipe do MIB e hoje integra o grupo. Nena e Cora chegaram por meio de resgates e passam por processo de adaptação social. Eliot nasceu ali. Filho de Bertolino, macho da região, com Ecológica, fêmea proveniente de outro grupo, Eliot foi o primeiro filhote de muriqui nascido de forma natural dentro de um ambiente controlado. Seu nascimento representa um marco na reconexão genética da população local. E é a prova de que o trabalho obtém resultados. A nova etapa: ampliar grupos e diversidade A próxima etapa do projeto prevê novas reintroduções na região do Ibiti Projeto, um movimento cuidadosamente planejado para fortalecer a população local. Segundo o primatólogo Fabiano Melo, professor da Universidade Federal de Viçosa (UFV) e conselheiro do MIB, o foco agora é estruturar grupos sociais completos e geneticamente diversos. “Nosso objetivo é formar ao menos dois grupos distintos e garantir maior variabilidade genética entre eles. Sem diversidade, não há resiliência populacional. E sem grupos socialmente estáveis, não há futuro para a espécie”, explica. Por que isso importa? “Salvar o muriqui não é apenas preservar uma espécie carismática. É proteger uma espécie guarda-chuva, cuja conservação fortalece toda a biodiversidade ao redor, da qual também dependemos. É garantir a regeneração da Mata Atlântica, protegendo suas nascentes e mantendo o equilíbrio ecológico. É contribuir para regular o clima”, argumenta Marcello Nery, presidente do MIB. E é decidir que o maior primata das Américas não será lembrado apenas como uma nota de rodapé na história ambiental do país. Conheça o MIB O Muriqui Instituto de Biodiversidade é uma organização não governamental dedicada à proteção dos muriquis e de seu habitat na Mata Atlântica há mais de dez anos. Atualmente, o MIB monitora cerca de 700 indivíduos na natureza, distribuídos em dezenas de projetos em parceria com instituições públicas e privadas. A instituição utiliza tecnologia de ponta para ampliar a eficiência da conservação, incluindo rastreamento por chips, câmeras de monitoramento e análise comportamental e genética. Mas, acima de tudo, o MIB acumula décadas de conhecimento científico sobre a espécie. conhecimento que sustenta a estratégia aplicada na Muriqui House. E ainda promove educação ambiental, conscientização de visitantes e apoio à pesquisa acadêmica. Saiba mais: mib.org.br | Instagram: @mib_muriqui Como tudo começou Tudo começou em 1982, quando Carlinhos Repetto adquiriu a Fazenda do Engenho, na região de Lima Duarte (MG) e simplesmente permitiu que a mata retomasse seu espaço sobre um antigo cafezal. Seu entusiasmo logo contagiou o primo e amigo Renato Machado, que, ao lado do irmão Marcelo Machado, se tornou sócio de Carlinhos. Juntos, além de construir a Pousada do Engenho, iniciaram um intenso trabalho de regeneração ambiental, erradicando a braquiária e replantando árvores da Mata Atlântica. O que começou como Reserva do Ibitipoca tornou-se
Muriqui Day: how preservation began in Ibiti

On August 27, we celebrate Ibiti Day and Muriqui Day, the largest primate in the Americas and a critically endangered species. For Ibiti, the date has a special meaning: it was here that Muriqui House was born, an unprecedented project to preserve the northern muriqui (Brachyteles hypoxanthus). It all started with the determination of Carlinhos Repetto, founder of Ibiti Projeto. Through reports from local residents, he knew that there were still muriquis living in Mata do Luna, an area threatened by deforestation. After a tireless search, Carlinhos managed to make the first photographic record of a northern muriqui in the region in 2002, confirming its occurrence. Listen to the audio Destiny transformed "I had been looking for this monkey for years," recalls Carlinhos. "This record was very important. It's on the back cover of the first book 'Reserva do Ibitipoca'. The photo of the monkey on the cover is by Araquém (Alcântara). When you open the book, there's a large black and white photo of the monkey, which was the first photographic record." At the time, Carlinhos found trees in full bloom with muricis, the monkeys' food, marked for felling. He went to the owner of the area and, with the support of his cousin Renato Machado, one of the creators of Ibiti, managed to buy Mata do Luna. This gesture was decisive: it guaranteed the preservation of the forest and started a conservation project that still resonates today. "It all started there," says Carlinhos. "I shouted to the world that it had to be preserved." And so the story of protecting the muriquis in Ibiti was born. Today, four decades on, the fight for the muriqui's survival continues. The Ibiti Project continues with regeneration and conservation actions, with unprecedented initiatives such as the Muriqui House project, developed in partnership with the Muriqui Biodiversity Institute - MIB. A historic step towards guaranteeing the future of the species. Celebrating Muriqui Day is above all celebrating the courage and vision of those who believed that preserving nature can transform destinies.
Maned wolf gives birth to two cubs in Ibiti

A rare and exciting scene took place in Areião, inside Ibiti: a female maned wolf gave birth to two pups in the wild. The fact, reported by a local resident who spotted the animals, is cause for celebration and reinforces the importance of conservation efforts in protected areas. We still have no records of the cubs. The image illustrating this article was taken by an Ibiti Projeto trap camera, in Areião, at another time. Although it doesn't show the birth, it is a real record of a maned wolf roaming the area. Choosing this regenerating territory as a shelter and nursery is, in itself, a sign of trust. The maned wolf, the symbol species of the Brazilian Cerrado, is considered an indicator of environmental health: it only stays and reproduces in balanced and preserved environments. "It's a gift from nature and a milestone for everyone working to regenerate this ecosystem," says Clariane Maranho, from Ibiti's Regeneration Department. "But it's also a moment that demands attention and respect: because she's with cubs, the female can adopt more protective behavior, which is natural in any species." How to act when you spot a maned wolf An endangered species, the maned wolf plays a vital role in the ecological balance, helping to control populations of small animals and dispersing seeds wherever it goes. Its survival depends directly on the conservation of its habitat and respectful coexistence with humans. May this new generation of wolves remind us once again that caring for nature means caring for the future of us all.