Conheça o muriqui e veja por que é urgente preservar a espécie

3 de March de 2026

Todo mundo conhece a onça-pintada. Já ouviu falar do mico-leão-dourado. São símbolos da fauna brasileira. Mas poucos sabem que o Brasil abriga o maior primata das Américas e que ele pode desaparecer sem que a maioria da população sequer tenha ouvido seu nome. Estamos falando do muriqui-do-norte, espécie endêmica da Mata Atlântica e criticamente ameaçada de extinção. Restam cerca de mil indivíduos na natureza.

Para mudar esse destino, o Ibiti Projeto, em parceria com a ONG Muriqui Biodiversity Institute (MIB), desenvolve uma iniciativa inédita no Brasil: a Muriqui House. Ali, oito muriquis vivem hoje sob monitoramento científico, em uma área integrada à floresta regenerada. Cada um carrega uma história de sobrevivência. E juntos ajudam a reconstruir o futuro da espécie.

Os trabalhos não param por aí. Para ampliar a diversidade genética e fortalecer a população local, serão reintroduzidos mais oito muriquis nas matas do Ibiti Projeto. 

Ficou curioso? Leia a seguir mais detalhes sobre essa iniciativa pioneira no mundo.

O que são os muriquis?

Existem duas espécies diferentes de muriqui no Brasil, vivendo em áreas geográficas distinta: O muriqui-do-norte (Brachyteles hypoxanthus) ocorre no sul da Bahia, em Minas Gerais, no Espírito Santo e na porção norte do Rio de Janeiro. Já o muriqui-do-sul (Brachyteles arachnoides) habita o sul de Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná.

Ambas as espécies estão ameaçadas. Mas a situação do muriqui-do-norte é ainda mais delicada, e é justamente essa espécie que vive na região do Ibiti e protagoniza a história da Muriqui House.

O muriqui pode atingir até 15 quilos e mais de um metro de comprimento com a cauda. Também conhecido como mono-carvoeiro, desloca-se com impressionante leveza pelas copas das árvores. 

Em tupi-guarani, “muriqui” significa “povo manso da floresta”. Eles não disputam poder com agressividade. Não há macho alfa dominante. Conflitos são resolvidos com longos abraços. Por isso ganharam o apelido de “hippies da floresta”.

São exclusivamente vegetarianos e desempenham papel ecológico crucial: ao se alimentarem de frutos e folhas, dispersam sementes, ajudando a regenerar a Mata Atlântica. Onde há muriqui, a floresta se fortalece.

Por que estão ameaçados?

O principal problema é a fragmentação da Mata Atlântica.

A floresta que antes era contínua hoje está dividida em pequenos fragmentos isolados por pastagens, cercas e estradas.

As fêmeas, ao atingirem a maturidade, precisam migrar para outros grupos para garantir diversidade genética. Mas, ao sair de seus fragmentos, muitas encontram barreiras intransponíveis.

Sem conectividade entre áreas de floresta, não há troca genética.  Sem troca genética, as populações enfraquecem. Salvar o muriqui exige mais do que proteção: exige reconstruir conexões.

Muriqui House: uma operação pela sobrevivência

Eliot é o primeiro filhote de muriqui nascido em ambiente controlado

No entorno do Parque Estadual do Ibitipoca, o Ibiti Projeto, em parceria com o Muriqui Instituto de Biodiversidade (MIB), a Universidade Federal de Viçosa, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Primatas Brasileiros (ICMBio) e a Universidade de Wisconsin–Madison (EUA), mantém o Muriqui House, centro de manejo, pesquisa, reabilitação e reconstrução populacional da espécie.

É um espaço monitorado, integrado à mata regenerada, onde indivíduos isolados ou resgatados podem viver em grupo, sob acompanhamento técnico. Hoje, oito muriquis vivem ali.

Tudo começou com Luna e Bertolino, dois irmãos remanescentes das florestas da região. Depois vieram as fêmeas Ecológica e Socorro. Morfeu foi encontrado recém-nascido, quase sem vida. Sobreviveu graças aos cuidados intensivos da equipe do MIB e hoje integra o grupo. Nena e Cora chegaram por meio de resgates e passam por processo de adaptação social.

Eliot nasceu ali. Filho de Bertolino, macho da região, com Ecológica, fêmea proveniente de outro grupo, Eliot foi o primeiro filhote de muriqui nascido de forma natural dentro de um ambiente controlado. Seu nascimento representa um marco na reconexão genética da população local. E é a prova de que o trabalho obtém resultados.

Assista ao documentário “A vida de Eliot”

A nova etapa: ampliar grupos e diversidade

Com população estimada em cerca de mil indivíduos distribuídos entre Minas Gerais, Espírito Santo e pequenos fragmentos no Rio de Janeiro e Bahia, o muriqui-do-norte está entre os primatas mais ameaçados do planeta.

A próxima etapa do projeto prevê novas reintroduções na região do Ibiti Projeto, com objetivos de:

• Formar ao menos dois grupos sociais distintos
• Ampliar a diversidade genética
• Fortalecer a população local

Criar grupos estruturados e geneticamente diversos tornou-se uma das estratégias mais importantes para evitar o desaparecimento da espécie.

Por que isso importa?

Salvar o muriqui não é apenas preservar uma espécie carismática. É proteger uma espécie guarda-chuva, cuja conservação fortalece toda a biodiversidade ao redor, da qual também dependemos.

É garantir a regeneração da Mata Atlântica, protegendo suas nascentes e mantendo o equilíbrio ecológico. É contribuir para regular o clima.

E é decidir que o maior primata das Américas não será lembrado apenas como uma nota de rodapé na história ambiental do país.

Conheça o MIB

Equipe monitora saúde dos muriquis por meio de exames e análises clínicas

O Muriqui Instituto de Biodiversidade é uma organização não governamental dedicada à proteção dos muriquis e de seu habitat na Mata Atlântica há mais de dez anos.

Atualmente, o MIB monitora cerca de 700 indivíduos na natureza, distribuídos em dezenas de projetos em parceria com instituições públicas e privadas.

A instituição utiliza tecnologia de ponta para ampliar a eficiência da conservação, incluindo rastreamento por chips, câmeras de monitoramento e análise comportamental e genética.

Mas, acima de tudo, o MIB acumula décadas de conhecimento científico sobre a espécie. conhecimento que sustenta a estratégia aplicada na Muriqui House. E ainda promove educação ambiental, conscientização de visitantes e apoio à pesquisa acadêmica.

Find out more: mib.org.br | Instagram: @mib_muriqui

How it all began

Tudo começou em 1982, quando Carlinhos Repetto adquiriu a Fazenda do Engenho, na região de Lima Duarte (MG)  e simplesmente permitiu que a mata retomasse seu espaço sobre um antigo cafezal. Seu entusiasmo logo contagiou o primo e amigo Renato Machado, que, ao lado do irmão Marcelo Machado, se tornou sócio de Carlinhos. Juntos, além de construir a Pousada do Engenho, iniciaram um intenso trabalho de regeneração ambiental, erradicando a braquiária e replantando árvores da Mata Atlântica.

O que começou como Reserva do Ibitipoca tornou-se Comuna do Ibitipoca e, hoje, é o Ibiti Projeto: um território onde a regeneração da natureza caminha lado a lado com o bem-estar, a inovação e a hospitalidade em um cenário marcado por belas cachoeiras, hotelaria de luxo e obras de arte, como as gigantes Estátuas de metal reciclado. Atualmente, seis mil hectares de pastagens degradadas estão em recuperação, sequestrando carbono e restaurando o equilíbrio perdido. 

Foi também Carlinhos quem primeiro alertou para a preservação dos muriquis-do-norte na região. Durante anos, ele buscou registros da espécie que sabia existir na Mata do Luna, a partir de relatos de moradores. Sua perseverança foi recompensada quando conseguiu o primeiro registro fotográfico de um muriqui no local, comprovando sua ocorrência. Na época, encontrou árvores em plena florada de muricis – alimento essencial dos macacos – marcadas para serem derrubadas. Convenceu Renato Machado a adquirir a Mata do Luna, garantindo a preservação daquele habitat crucial.

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Muriqui Day: how preservation began in Ibiti

Ibiti regenerates more than 1,200 hectares of Atlantic Forest 

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